terça-feira, 24 de março de 2015

"Só morremos de nós mesmos"...

Herberto Helder
...


Havia um homem que corria pelo orvalho dentro*


12 comentários:

  1. Não Til..... Isso é uma grande mentira....
    Nós morremos com a tristeza que o mundo nos ensina. Minha visão de mundo hoje, é profundamente pessimista...

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  2. E depois há os que morrem para nós...

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  3. E era madeirense. O que é regional é bom, tens dúvidas?
    Kis:>}

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    1. Sei sim que era madeirense!
      O que é regional nem sempre é bom e nem preciso de te dar exemplos;)
      Se falarmos de ti não tenho dúvidas*
      Beijos aqui do norte:))))

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  4. Til, lembrei-me desta Obra de Herberto Helder, bastante interessante! :)

    A MENSTRUAÇÃO QUANDO NA CIDADE PASSAVA

    A menstruação quando na cidade passava
    o ar. As raparigas respirando,
    comendo figos - e a menstruação quando na cidade
    corria o tempo pelo ar.
    Eram cravos na neve. As raparigas
    riam, gritavam - e as figueiras soprando de dentro
    os figos, com seus pulmões de esponja
    branca. E as raparigas
    comiam cravos pelo ar.
    E elas riam na neve e gritavam: era
    o tempo da menstruação.

    As maçãs resvalavam na casa.
    Alguém falava: neve. A noite vinha
    partir a cabeça das estátuas, e as maçãs
    resvalavam no telhado - alguém
    falava: sangue.
    Na casa, elas riam - e a menstruação
    corria pelas cavernas brancas das esponjas,
    e partiam-se as cabeças das estátuas.
    Cravos - era alguém que falava assim.
    E as raparigas respirando, comendo
    figos na neve.
    Alguém falava: maçãs. E era o tempo.
    O sangue escorria dos pescoços de granito,
    a criança abatia a boca negra
    sobre a neve nos figos - e elas gritavam
    na sombra da casa.
    Alguém falava: sangue, tempo.

    As figueiras sopravam no ar que
    corria, as máquinas amavam. E um peixe
    percorrendo, como uma antiga palavra
    sensível, a página desse amor.
    E alguém falava: é a neve.
    As raparigas riam dentro da menstruação,
    comendo neve. As cabeças das
    estátuas estavam cheias de cravos,
    e as crianças abatiam a boca negra sobre
    os gritos. A noite vinha pelo ar,
    na sombra resvalavam as maçãs.
    E era o tempo.

    E elas riam no ar, comendo
    a noite,
    alimentando-se de figos e de neve.
    E alguém falava: crianças.
    E a menstruação escorria em silêncio -
    na noite, na neve -
    espremida das esponjas brancas, lá na noite
    das raparigas
    que riam na sombra da casa, resvalando,
    comendo cravos. E alguém falava:
    é um peixe percorrendo a página de um amor
    antigo. E as raparigas
    gritavam.

    As vacas então espreitando,
    e nos focinhos consumia-se o lume em silêncio.
    Pelas janelas os violinos
    passavam pelo ar. E a menstruação nas raparigas
    escorria pela sombra, e elas
    gritavam e comiam areia. Alguém falava:
    fogo. E as vacas passavam pelos violinos.
    E as janelas em silêncio escorriam
    o seu fogo. E as admiráveis
    raparigas cantavam a sua canção, como
    uma palavra antiga escorrendo
    numa página pela neve,
    coroada de figos. E no fogo as crianças
    eram tocadas pelo tempo da menstruação.

    Alimentavam-se apenas de figos e de areia.
    E pelo tempo fora,
    riam - e a neve cobria a sua página de tempo,
    e as vacas resvalavam na sombra.
    Em silêncio o seu lume escorria das esponjas.
    Partiam-se as cabeças dos violinos.
    As raparigas, cantando as suas crianças,
    comiam figos.
    A noite comia areia.
    E eram cravos nas cavernas brancas.
    Menstruação - falava alguém. O ar passava -
    e pela noite, em silêncio,

    a menstruação escorria pela neve.


    Herberto Helder, A Máquina Lírica, in Ou O Poema Contínuo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004

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  5. (...) Corpo e alma e bilhas de gás na eternidade (...)
    HH

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  6. Podes ver aqui http://www.highsnobiety.com/2014/06/12/j-crew-new-balance-998-independence-day/ ;)) são uns ténis, super confortáveis.

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